– Olá, Alex Róóóig, como vai? É isso, Róig, Alex Villas Róig? Pronunciei corretamente? – perguntou o doutor em um tom amável para seu novo paciente, um homem jovem, aparentava trinta anos, rosto imberbe e pálido. À primeira impressão seu aspecto inspirou a ideia de algum mal do sangue, talvez anemia.
– Quase acertou, isso ocorre sempre que ouvem este nome – disse o homem sorrindo. – A pronúncia é Röig – falou com a dicção correta e impecável, o som que ouvia há muito tempo, ilustrando com a boca exageradamente em forma de ovo, como se estivesse com um bem grande dentro.
Por cima dos óculos o bom doutor Klaus Hildebrand Soares se mostrava autêntico e curioso. Sempre que queria, representava esta personagem, abaixando a cabeça, o queixo encostando no peito e as pupilas escapando por cima das lentes. De fato havia estudado o gestual, o tom empostado de barítono, os movimentos lentos. Ao contrário, quando olhava através deles, ou seja, por detrás de suas lentes grossas, vestia-se com a armadura da coragem e erudição e talvez este fosse seu alter ego desempenhado com mais facilidade e entusiasmo.
– O que se passa? – fracassou ao entonar a pergunta demasiadamente. Soou como uma melodia o que na verdade era uma pergunta protocolar.
– Doutor, se o senhor pergunta o que me trouxe aqui, minha resposta será a mais honesta para este contexto, até que a barreira inicial seja vencida naturalmente – e então, com o tom mais natural que encontrou disse o paciente, propositadamente vacilante:
– Pertenço a um outro universo e estou aqui temporariamente.
Dr. Klaus, ouvindo estas palavras, intercalava seu olhar, ora para o paciente, ora para o bloco de anotações que estava atrás de um batalhão de objetos decorativos dispostos estrategicamente na mesa. Agiu com forçada curiosidade mas no bloco sua caneta deslizava relapsa e com tédio escrevia o que seria mais um caso, não tão incomum, de delírio paranoide ou algo relacionado. No entanto parou de escrever e voltou-se ao paciente, atento e impelido por seu senso profissional.
Após a declaração de Alex, aguardou competentemente por um par de minutos. Alex não apresentou nenhuma alteração física que fosse perceptível à distância em que se encontravam, mudanças que estava habituado a notar e que indicavam esta ou aquela situação clínica que auxiliasse na identificação de uma patologia. A respiração ritmada e suave, a postura ereta mas não militar, o olhar calmo como se estivesse diante de um amigo. Neste pequeno intervalo de tempo sua linguagem corporal atestava a verdade de suas palavras ou, ao menos, o que ele mesmo acreditava ser verdade, enfim, vencido pelo silêncio e a fim de colher informações mais precisas que serviriam ao diagnóstico, perguntou:
– Devo admitir que você fala de um outro universo igualmente real a este em que ora estamos ou uma outra coisa?
– Que outra coisa, doutor?
– Digamos que este outro universo fosse uma vida após a morte ou um futuro distante no tempo… – Censurou-se antes de terminar a frase. Ia dizer-lhe um futuro no qual havia máquinas do tempo, e que ele havia voltado numa viagem destas, etc, etc. Esta frase já tinha usado em outras ocasiões e provinha da sua experiência com outros pacientes, de outras loucuras e fantasias.
– Doutor, você não deve ou precisa admitir nada, deixe que eu apresente aos poucos este universo. E nesta entrevista inicial desenharei apenas um esboço e não serei nada filosófico e muito menos retórico, se assim o senhor permitir.
– Sim mas devo fazer-lhe uma pergunta antes que principie, está bem assim? – disse isto como um mestre diz a um discípulo, para estabelecer bem os papéis, “cá estou eu, seu médico, deste outro lado eis você, o paciente”, foi o que as palavras quiseram dizer quando Doutor Klaus disse-as, elevando um pouco a voz:
– Quando você veio para cá?
O bom doutor bem sabia que a maioria das fantasias não resiste à incidência do tempo e assim, quase sem pensar, ficou satisfeito, era uma fórmula tão simples quanto eficiente. Seu novo paciente respondeu sem refletir um só segundo, parecia ter a resposta pronta:
– Apesar de eu ter me referido a um outro universo ele existe agora, junto com este em que conversamos. Não há como dizer quando eu vim para cá porque estou em ambos, vamos dizer nestes termos, simultaneamente, para que o senhor não fique sem resposta, mas saiba que nem de longe é o que ocorre.
Doutor Klaus limitou-se a gesticular, como a dizer “continue”, Alex acomodou-se na poltrona e deixou-se absorver na maciez das formas arredondadas e confortáveis, então o doutor esqueceu-se das anotações e deixou-o falar, às vezes fazia uma ou outra consideração sobre alguma coisa, mas fazia assim somente para atestar sua presença e interesse nesta conversa inicial.
A narrativa do paciente não era desinteressante, ao menos neste resumo, e a um primeiro exame era digna de uma imaginação criativa e bem construída, como se Alex a estivesse escrito e estudado muito antes de narrar oralmente. “Talvez fosse um ótimo contador de histórias”, pensou o doutor, rindo-se ao recordar de outros casos e sem dar crédito ao relato.