Oi, mundo.
Não nasci Raimundo nem Severino — nasci coisa torta, embrulho de carne frouxa. Vim ao planeta como quem escapa por engano de um pesadelo alheio: feio. Pelancudo, repulsivo, tão repulsivo que as avós, ao me avistarem tremelicando atrás do vidro da maternidade, empalideceram como quem topa com um mau agouro. Se encheram de pena daquele feinho que esse aí não atravessa a noite, não vinga, desmancha antes do amanhecer.
E eu, recém-parido, boiava náufrago no berço líquido, larva e pupa esperando pra ver se o tempo se dignava a dizer se eu era gente ou só um erro viscoso da espécie. Junto à manjedoura –hoje eu sei – uma pequena multidão se aglomerava para ver o pequeno rei que faria descer dos céus um novo reino de justiça; a manjedoura era a estufa, reservada aos mal nascidos, a multidão era deveras mínima, um conjunto de objetos escanteados: um suporte para fluídos, já carcomido pela ferrugem, há que se notar, um esfregão esquecido pelo faxineiro, a miniatura de uma bola de futebol, made in China, mimo de algum bom samaritano consternado que passara por ali, e um ralo aberto no chão
Cuidado, principiar o dia com prego enferrujado enfiado na mão, eu a deitar o lixo fora, a ensacolar quinquilharias acumuladas
CNN noticia Um Novo Dia projetado no ecrã com uma trinca diagonal, canto a canto, os 07:03 dentro de um box vermelho já são oito e tra-la-lá, mas a manhã é rio sujo e contaminado, já já estarão nove, nove e pouco, meio dia, breve; as manhãs são algoritmos cheios de rage baits & fake news & raters & já floplou, ok? Metáfora up-to-date, Se eu fosse Severino eu era herói de poema, adjetivo de morte, era Adão e Moisés de um novo Êxodo, se Raimundo, então era protótipo de uma raça forte e endêmica, pronome de gente resiliente e festeira, nome comum que representa povo de cultura rica original. Mas devo ser uma outra coisa, outra substancia, outro nome. Só isso.
Um zé-ninguém no meio da multidão de zés-ninguém,
mas eu ainda não entrara na competição, ou entrara cedo demais, antes do ponto, com ponto negativo, sem vigor, sem estrela, sem choro nem velam-me apenas aquelas duas matriarcas com profundo dó alheio, pois ainda não foram avisadas de que aquele coitadinho é seu mais legítimo herdeiro do sangue de seu sangue, da carne de sua carne, seu tão aguardado primogênito.
não há agoras que bastem, reflexoes sobre o tempo são tão atrativas quanto inúteis, pensar o tempo é vício burocrático, formulários e planilhas, papéis amarelecidos e telas verdes, atestados de ordem e método misturados à intuição e sensus comum: ilusões de competência rigorosamente arquivadas e armazenadas em uma grande pilha empoeirada de pecados.
Do nascer ao por do sol, numa aritimética simples, tomemos o poente como minuendo e o nascente, subtraendo; subtrai-se este por aquele e o que nos resta senão o meio círculo de um dia de trabalho, solasol arco de labores?
Com arroios de suor a escorrer-lhe nas veredas da face, sentiu os pés plantados naquela terra sem fim; o que lhe acudia à memória eram restos de imagens decantadas de antigos romances, mal lidos, clichês gravados no frontispício da sua historiazinha – brochura capenga e desinteressante ou a edição kitsch de Dom Quixote, saída dos porões de uma decadente Editora Três. Toda esta pataquada de livros de que servem senão para botarem o ovo da ilusão nos miolos, o excesso de imaginação e o riso frouxo dos crédulos? As ficções, hoje ninguém as lê, e sentiu logo um beliscãozinho no dedão do pé.
