I
Se a musa ainda é menina,
Pouco ou nada sabe
De poesias, poeta ou rimas.
O poeta por sua vez,
Ignora igualmente seu valor,
Nada ou pouco atina a seu favor.
II
Antes de findar, tudo medra, é a lei,
Deuses, homem ou pedras,
Musa também segue a regra.
E, no arroubo de saber-se Musa,
Ainda incauta em seu legado,
Não duvida, mas instiga:
III
“Tendo eu vinte, trinta ou quarenta,
Serei teu vulto, a razão
Das tuas odes mais intentas?”
O poeta cala, nada inventa,
Não há musa, nenhuma nesta idade
Que mereça tal vaidade.
IV
“Aos cinquenta, /serei ainda
Teus motivos, tua medida
Do teu odre o melhor vinho?”
Ri o poeta, riem todos
A Musa surge, feito mestre, de mansinho
Se há poeta à espera no caminho.
V
“Estarei sexy aos sessenta?”,
Pergunta ao poeta a Musa,
“Depois de tantas odes e letras?”
O poeta nada fala,
Escreve, ama e não reclama.
Nada supera da Musa a chama.
VI
“Estarei sexy aos sessenta, setenta?”,
Insiste ao poeta a Musa,
“Não te esgotas em tua poesia?”
Diz o poeta, sem traço de heresia:
Não há risco este que me aventa,
Sexy é um estado que se inventa.
VII
Aos oitenta, noventa,
Quando o viço é espelho opaco,
E se o fim já se apresenta…
Então a noite cerra o manto,
A luz divina se avoluma,
A musa renasce em outra bruma,
O poeta morre, fecha-se o canto.