Relógio

Nunca fui relógio,
privado de precisão numérica
de mecânica incansável – a vida toda –
tic-tacs a ouvir
nunca os produzi.

Não tenho rubis ou cristais,
molas ou contra-balanços,
ponteiros a apontar para fora.

Não desperto outrem de seus sonhos,
apraz-me matar o tempo.
Não badalo seis doze vezes,
conheço a falha da síncope irregular.

Tenho coração
que acelera, atrasa, descompassa,
delicadas evoluções nervosas
mãos sonhadoras e achaques.

Mas me viola essa falta dos ponteiros:
membros amputados;
e o curvar-me diante das horas:
é irremediável.

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