A porta da sala abriria a qualquer momento e é bem verdade que todos estão um pouco incomodados com a presença que, daqui a bem pouco, será um estorvo, pelo menos na opinião da maioria. Então a porta abrirá suavemente, como é o costume de alguém educado. Ele é um homem de bons modos, todos o sabem, às vezes rude, daqueles que resolvem as coisas em rompantes, mas é discreto na maioria das vezes e sua sutiliza impressiona os corações mais brutos.
Certa vez, é o que estão a falar agora enquanto aguardam, resolveu um problema com uma só palavra, era uma questão de dívida entre dois amigos, uma palavra só e aquilo já estava resolvido. Ele tem esse dom, o de resolver tudo com uma só palavra. Esta agitação na sala é antes de tudo o respeito que esse homem imprime e se causa incômodo é meramente o incômodo provocado pela luz da verdade. Um temor que se sente quando as coisas estão no fio último do desfecho e uma verdade desagradável está por vir.
Os automóveis na rua instigam a curiosidade. Será ele agora? Virá de táxi? Já o imaginam descendo do avião, as roupas sempre puídas, esgarçadas mesmo, de sapatos empoeirados e a vasta cabeleira coroando a calvície, fazendo lembrar aqueles ramos de louro dos antigos romanos. Ele era assim, como se vivesse num monastério ou como um ermitão. Como um João Batista a comer gafanhotos e mel silvestre.
Toda a ansiedade não era sem motivo e uma figura como a desse homem é ameaça para todos, sem dúvida alguma. Até Maria Rita já se mostra aflita, muito mais pelo contágio que pela figura grave do homem que se apresentará. Ela, a caçula, sobrinha que sempre gostou tanto dele.
Passos na escada. Ruídos no imenso saguão daquela casa colonial e centenária. Depois no corredor. Tia Eunice se agita e anda da sala à cozinha, da cozinha à sala. Percebe um copo desajeitado no aparador e ajeita-o, trêmula. Tio Eusébio e Tio Frederico riem um riso nervoso, baixinho e abafado. Suas pernas mexem-se como se impulsionassem pedaleiras de máquinas de costura. Apesar desses pequenos torvelinhos um enorme silêncio abafava o ar.
Mas o que ele poderia fazer, afinal não sabe de muita coisa, ou mesmo não sabe de nada, tantos anos que passou no exterior. Talvez…, não, mas, o que se faz numa hora dessas? Esses são os pensamentos que se adivinham enquanto ficam ali, sentados, um em frente ao outro, a esperar a chegada de alguém que poderá por tudo a perder, e aguardam naquela mesma angústia daqueles que estão com o capuz preto, diante do carrasco. Iriam recebê-lo com amabilidade, cortesia sem excessos, de braços abertos, está claro. Sim, era preciso estabelecer uma regra de conduta, um procedimento a que todos estariam obrigados a seguir.
E se ele perguntasse algo? Não, ele não tocara no assunto, que bobagem… Apesar de sua discrição é um homem firme, de opinião forte e é evidente, está obstinado a resolver tudo.
— Com uma palavra só – riu tio Eusébio, num tom entre a chacota e o medo, mas disse entre dentes, para ninguém ouvir.
Os passos cessaram.
— Eu não ouvi nada — disse tia Etelvina. Os outros concordam. Somente tio Eusébio disse ter ouvido passos na escada. Jurou que ouviu e todos o olharam desconfiados.
— Não é mesmo, Fred, você também ouviu! – e cutucou com o cotovelo.
Tio Frederico só balançou a cabeça, nem sim nem não. Tia Eunice agora já se ocupa de acomodar melhor as almofadas e do esquadramento dos móveis. Jurou que aquele quadro estava torto, na intenção de endireitá-lo entortou-o ainda mais. A poeira, as teias de aranha, isso é que dá querer morar numa casa velha, as antigas manchas na parede…, rapidamente sacou de um lenço e esfregou-o obsessivamente. Manchou-a onde não havia nenhuma mancha. Irrompeu num choro convulsivo, doentio, e como não dava sinais de que parasse tio Frederico levou-a ao quarto. Todos ouviram o som de um tapa antes que tia Eunice parasse de chorar.
A sala silenciosa era uma atmosfera insalubre. Todos estavam há horas aguardando, desde que tia Ruth recebera a carta. O carimbo de postagem era de um dia anterior, da cidade de Langenburg, na Alemanha. Na carta, tio Lino falava que estava tudo bem, que chegaria amanhã e estava a par de tudo e gostaria de ter uma conversa com toda a família. O texto era breve, limpo, seco. Mas uma coisa, e somente isto, deixou a todos com a sensação de embaraço. “… e estou a par de tudo”.
— Estas são suas palavras, as palavras exatas, preto no branco — comentou tia Ruth, enquanto iniciava a leitura novamente. Mas talvez fosse um blefe. Ele suspeita realmente de algo? E por que vem, afinal, seu trabalho na Alemanha terminou?
— Ele não disse nada sobre isso e como todos ouviram, pouca coisa ele disse — observou tia Ruth. Tio Eusébio pareceu uma cabra quando tentou dizer:
— É claro que não há nada…, nada de mais, apenas umas férias…, é isso, ele vem de férias, e…, — coçou a cabeça, os cotovelos apoiados nos joelhos e segurando a cabeça gritou:
— Ele sabe de tudo, ele sabe de tudo, meu Deus!
Levantou-se e sentou-se novamente. Neste momento, como que um pânico instalou-se no ambiente. Estranhamente estavam amarrados neste situação, nada poderiam fazer a não ser suportar a angústia da espera.
— Vamos manter a calma. — Disse tia Ruth. — E leve essa menina para o quarto, faça-a dormir, — e olhou feio para tio Eusébio. Neste momento tia Eunice sai do quarto, os olhos empapados e fundos, a boca caída e os braços largados como se sofressem de paralisia.
Entrou na sala e parecia decidida, “a fazer qualquer bobagem” — como teria pensado tio Frederico —, disse em tom claro e calmo, como se tivesse imergido num profundo estado de espírito.
— Vamos contar toda a verdade.
E falou num tom que assustou a todos, ali já não era tia Eunice quem falava, seu espírito não era constituído desta forma. “Está possessa, desvairada”. Era a própria voz da verdade, sim, tia Eunice estava possessa pela verdade. Tentaram acalmá-la apoiando-lhe os ombros e dizendo-lhe palavras consoladoras, aquelas palavras que são ditas quando tudo já está perdido. Não conseguiram e, tomados por um respeito intuitivo, temiam chegar perto de tia Eunice.
Agora, quem demonstra impaciência é tia Ruth. Ela olhava para a porta, depois para tia Eunice, e repetiu este movimento várias vezes. Foi à cozinha, tomou um pouco d’água, retornou e todos a seguiram com os olhos enquanto andava pela sala.
— A verdade jamais será dita. Deixem Lino entrar, vamos recebê-lo e depois… — Faltou-lhe o ar quando tentou completar. Tio Eusébio tentava colher as palavras vazias no ar, palavras que não foram ditas. Tia Ruth sentou-se sobre o tapete, aos pés de tia Eunice que permanecia em pé.
Desesperada e lívida, falando firme, e sem mover um músculo sentenciou:
— Tia Eunice tem razão, já é tarde para fugirmos, de qualquer forma ele acabaria descobrindo tudo.
Tia Ruth nunca chorava e jamais demonstrara qualquer emoção. E foi assim, neste estado de pedra, que proferiu o resto da sentença:
— Já é hora de pagarmos o preço — levantou os olhos para tia Eunice, como uma criança levanta os olhos diante dos pais. Uma só lágrima avermelhada manchou seu rosto, descendo até o canto da boca. Depois tombou no chão sem vida.
Neste momento todos olham para a porta que abre devagar, fazendo surgir, junto a um halo de luz da tarde, a imagem de um homem.
