O vigia despertou com o ruído da pequena multidão do lado de fora, tinha pegado no sono após o litro de cachaça surrupiado da macumba e entornado, andou mancando até a entrada, então viu a cabeça fincada na lança de ferro fundido que selava a junção dos enormes portões do cemitério. Nome do pai, arredou dali se benzendo. A sexta-feira é recém-nascida do lado de fora do automóvel. Existe na noite sem lua, no agitar das folhagens choronas, no dormir das calopsitas.
Os mortos, reduzidos aos nomes em letras de metal dourado ou mal pintadas nas lápides pobres, emergirão do porão de seus ternos, roupinhas de batizado, vestidos longos.
Sim, haverá festa.
“Tira o pau pra fora, deixa ela te chupar.”
“Melhor saírem, sou profissional, pai de família, batizado e salvo pelo sangue de Jesus, agora já é demais e não sou seu empregado.”
“Hoje é, rapaz!, se não te dou dinheiro é pra não ofender meu amor, mas veja quanto dá o tempo e não ficará no prejuízo.”
Não é fácil cortar uma cabeça humana mas basta um pouco de paciência e sangue frio… Mas a quantidade de sangue atordoa. E demora esfriar. As calopsitas já tinham comido os olhos e fizeram um buraco no rosto de onde retiravam pedacinhos de mucosa macia. Foi quando chegaram uns devotos para o dia de finados. Assustadas, as aves debandaram para a árvore mais próxima de onde esperam famintas.
A mão do meu amor produziu rápida mudança de conduta, profissional que nada, e o sangue redentor devia ser lá muito dos aguados. Pai de família? Conte-me outra… Meu amor abriu o zíper com cuidado enquanto ele já se metia entre os bancos levantando a pélvis.
Que falta me faz uma machadinha. No canivete dá um trabalho danado. Pisei no peito do cadáver e com o outro pé pressionei o queixo, uma, duas…, cinco tentativas e… pronto, separou a vértebra. Canivete bem afiado, os tendões sem dificuldade.
Fiquei sentado no banco de trás, penetrava no cuzinho, um forninho quente e apertado, a bunda vai e vem, ia e vinha, e eu ouvia a boca do meu amor sugando, engolindo avidamente a rola do sujeito. Acariciei as coxas, o ventre, os seios, e os dois mamilos simultaneamente, o que produziu gemidos mais fortes e profundos. Senti o cuzinho do meu amor apertando, pulsando, meu amor voltou-se para mim e o sorriso farto, os olhos semicerrados, a boca úmida plenamente satisfeita. Sorriso de amor e gratidão.
É difícil prever o comportamento destes pássaros, as calopsitas, seus hábitos alimentares regidos pelo abundância daquilo que há por perto. Alguns mudam seu hábito por imitação. Muitos descem nas covas, atraídos pelo cheiro dos corpos apodrecendo, passam pelas carneiras que aguardam o arremate dos covei-
ros, fartam-se de carne morta e não conseguem subir mais.
Quando acordei meu amor dormia ao lado com os cabelos esparramados sobre a cama. Vesti-me lentamente e não me atrevo a retirá-la do seu sono. Chego a tempo de ver viaturas de polícia e peritos a fotografarem o local. O pequeno portão ao lado foi aberto ao público. Entro. Muita gente rindo e chorando. Bem-te-vis voam. Flores e cheiro de santo, que é o mesmo cheiro das velas. Vez ou outra ouço
um canto metálico vindo debaixo da terra, fraquejando, até cessar. Mais uma calopsita que foi fundo demais.
Caminho sobre ninguém. Também presto culto aos mortos.
