Vinagre

I
Deste licor medido,
de amaro sabor nascituro
de gosto acre e cobreado,
sabor, dos vinhos, impuro.
Irmão de cepa bastarda,
quem vem da mesma videira
raiz de pouco, da qual veio nada.

II
Não de barris de carvalho
em outro curtume dormido,
não em quintas de guardar vinho,
não em tonéis de pau-rosa:
como se houvesse prosa
na poesia desse tinto,
em cântaros de barro cozido
ou de fabril alumínio.

III
Deste ascético mudo
onde calar cabe a bebida,
seja cálice opaco vítreo
do seu beber obtido,
eis seu teor azedo
daquele lastro de cobre,
gosto metálico e nobre.

IV
Casta pobre e profana
sacia sede nenhuma
brotado das toscas ramas
mas não nas barricas podres,
não no pau da amoreira,
não no ventre de falso carmim
que lhe deitam aroma chinfrim.

V
Madeira é de fibra mesma
da parreira de mesma uva,
daquelas que não se mais usa,
das turvas raízes, não presta,
canhota de uvas e dornas,
pois é de bebida honesta:
para servir em morte ou em festa.

VI
Caldo e mosto saídos
dos lêvedos mais antigos.
A parecer barro em olaria,
cor da argila cozida,
igual ou mais que alguns vinhos,
sabor de crer para ver
azedume, perfume e buquê.

VII
O ardil no cru paladar,
temperos de terra e de mar,
descansa em outras talhas,
decante de sobra vária,
das nobres gerações tintas.
Não que essa vida valha
para tanta uva pisada:
a lágrima azeda é a que fica;
não que esta mesa valha
para tanto acre medido
resta-lhe o acre da vida.

VIII
Não que esta espera valha
para gosto tão dividido,
se a esponja recusou Cristo
há mais em cântaros bíblicos,
diverte os paladares mais tísicos,
se a sede não sacia a casa,
sempre haverá prato e taça
para que desta bebida haja.

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