Acordei depois da consciência, pleno de dormir para sempre. A orla bordada de espumas cobre a terra, depois a descobre sem dominar.
Mar e horizonte. Náusea. “See you later”, ouço pela enésima vez o eco da voz eletrônica enquanto uma nau singra minha imaginação. No quarto as coisas espalhadas são o banzé de ontem, fato, gravata, o pé direito do sapato virado e o esquerdo chuta a soleira no canto oposto.
Fila de elefantes marcha pesada em minha direção, treme a terra, abala as paredes, mas são só os gigantes da National Geographic pela TV. Na cama jazem dois corpos nus, ângulo aberto marcando sorriso de relógio; o tempo digital é imune a emoções e reclama seis e meia.
Saio com a sensação de urgência oprimindo-me o peito e levito no elevador panorâmico que me levará à cobertura.
As sementes da guerra são flores cinzas estampadas nas fachadas esburacadas dos edifícios: imagem negativa que coexiste na Maputo ausente. Depois do café contemplo o sol, estrela de luz acima do bem e do mal que parece tocar o oceano. Venderam-me este mobile que fala um inglês que não entendo — dinheiro, amor e ódio são línguas universais — e lanço com raiva o aparelho que gira no azul e cai falando aos quatro ventos.
Abandono-me em queda livre.
Janela. Parede. Janela. Parede.
“I miss you”. Janela, parede, já… nela, pare… de.
Dois estampidos.
Náusea.
Chão.
Mais um dia apaga-se no azul concreto.
