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Novelos e Palavras

Dormi sobre o meu passado
atordoado, sobre os carretéis vazios do futuro,
nem mais juro, nem sou mais,
os fios que tramavam o presente da vida,
eram firmes e sólidos e maleáveis,
agora depois de agora daquele agora
são pontas soltas a enrodilhar novelas inverossímeis
e emaranhados roteiros
e o gato é um “talvez” a brincar com o novelo
e suas patinhas macias com cinco lâminas
podem esgarçar o prazer das horas.

Minha estrada ruiu, quedam-se os muros, pontes, escoras
e os ferros da minha ferrovia,
ferrugenovia devora ferro, concreto e ar
e trava as rodas
e come os ferros
e chupa os ossos
do “eu quero”.

Estou diante da capital
e minhas veias são cheias da poesia transfundida
do quintal da cidade
onde mora a palavra marginal,
água, sangue e sal,
meus hidratos,
meus cloretos, a poesia,
e meus versos desenrolados
na alquimia de ensaios e sonetos,
morrem em terza rima, anacolutos, nos hiatos do espírito.

Nas ditongas feijoadas de domingo a palavra transporta nacos de suculenta porção
e meu suor, mais que um quêd’água, tem o sal das lambroesas de dezembro,
pitangas azedas, ah, como eu lembro…

Palavra é a linha que me guia no escuro
mas há palavras de outra lavra, palavras perdidas, órfãs de poetas,
atraídas por sua gravidade de Anã Branca,
aquelas lidas em rótulos de veneno,
nas bulas dos antipsicóticos,
na lira dos desassossegos,
e as acolho e as envolvo em minhas penas
como eu faria a um natimorto,
não aceitam desaforo e devoram, qual dinheiro, a polpa da vida,
como uma prostituta que nunca dorme,
e cospem fora o caroço.

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