O Mercador

– Já disse que não quero, moço – irritou-se com o vendedor, que em-
punhava a carriola coberta por uma manta de retalhos.

Mas ela não havia dito nada, na verdade nem ouviu a oferta. Teresi-
nha saía do supermercado com três sacolas de plástico biodegradável, a fi-
lha de dez anos a acompanhava logo atrás, lambendo um enorme sorvete

que empapava queixo, pescoço e um antebraço, açúcar com gordura, que
pingava sobre sua barriguinha precoce.
“Cuidado, porta automática”, avisava a plaqueta sobre suas cabeças.

O xadrez exige inteligência, não se engane, mover as peças é fácil, ca-
valos em “L”, bispos nas diagonais… Mas a principal arma é antecipar as jo-
gadas do adversário.

O vendedor aguardou com o queijo na mão, embrulhado num plástico
transparente, bloqueando a passagem da mulher.
– Fica pra outro dia, só tenho cartão.

– Para clientes especiais como a senhora, facilidades especiais – e sa-
cou a maquineta eletrônica. A mão é mais rápida que o olho.

Xeque.
De onde saiu isso? Como diabos ele…, bem, agora Teresinha já tinha
sua atenção voltada para o vendedor. “Se é briga que ele quer, briga terá”,
ela pensou sorrindo.
– Só gosto de queijo com goiabada, é um antigo hábito, sabe como é…
– Aqui a satisfação do cliente é nossa obrigação.
Zás-trás e.
Voilà. Numa das mãos apareceu um delicioso bocado de goiabada. Ela
não viu o pano que cobria a carriola, sacudido por uma leve brisa.
Xeque-mate.
Então ela achou melhor parar por aí.
Saiu dali com o Romeu, a Julieta e mais uma libra de carne.

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