O Enforcado

Da série Tarô

O Diabo deu-me o dom de iludir com a palavra. Uso-o bem, descreio, não sou vadio. Faço o que quero, escureço o dia, torno quente mulher fria, enforco os culpados no nó de suas próprias palavras.

Vadiagem, para o homem, é o pior defeito, é acídia, é homem sem vontade, que nada decide. Mulher vadia é a própria graça de deus em pessoa. A própria mãe de deus foi uma vadia, não enganou só um homem, chifrou toda uma geração de carolas cornudos, mas quem será o último a saber?

E quem é que botou o mundo de cabeça pra baixo? No fundo todo homem gosta de vadias, é a própria luz divina que desceu, e, quando encontram uma de verdade, pagam qualquer preço. Homem é tudo igual, como diz o dito. Se apaixonam pelas vadias, regalam-se em seu banquete, e depois choramingam para a outra mulher, que acreditam, está longe de ser vadia. Não sou homem nem mulher. Às vezes um, outras outra. Quase sempre os dois juntos.

Na verdade sou um enganador, ou, melhor vivendo, ganho a vida como encantador de palavras.

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