Boi de Piranha

— Ei, você.

O estalar de uma folha seca, dentes rangem.

— Psiu, você mesmo.

Um motor a diesel rosna, ecoa a avenida vazia, longe e metálico.

Agudíssimo dentro da cabeça e você ouve. É o céu e um serafim o defuma com benjoim e o transe. Ou quase.

O marrom de cabeça pelada sacolejou como dança de acasalamento, farejou o ar e ciscou: “Madame dança?”, e ainda com rabo de olho travesso: “vosmecê gosta?”, perguntou com um sorriso malicioso que brincava de trocar de lugar, ora nos olhos, ora no canto franzido da boca. Estamos no tempo em que “você” veio da tradição que ainda conserva refluxos dos governos que se investiam do Direito Divino e com efeito suas autoridades eram consideradas divinas.

“Estou à vossa mercê”, o preto lhe disse mas você duvidou de tudo.

Um sacrifício é sempre algo maior a ser poupado, sua crença.

Você, tenho-lhe grande estima e respeito, coisas difíceis de encontrar nos tempos de hoje, concorda comigo?

Ela sentiu o ventre gelar e um arrepio fornicador esquentar as entranhas. A lua vermelha e cheia já se ia parida pela noite mágica e subia mais clara, mais prata, como uma lâmpada gnóstica. Os mamelucos ferviam na caçarola do ritmo lundu e pareciam celebrar a dança de nossos ancestrais, gritando e sorrindo entre orelhas, sussurrando gírias, dizendo rimas, maltratando-se teatralmente e todos ferviam juntos no mesmo estado de ânimo, capoeira, rituais e ritmos.

Sua vida começou no pulsar de uma gota de água e sangue e religiões não carecem mais de nomes próprios ao expirar o sopro divino.

“Aqui é onde céu e inferno contraem matrimônio”, você pensou, enquanto ela ia com dedos enlaçados com os dele; marrom, dourada, marrom, dourada, as palhas da carnaúba em trança.

Ela, quem era ela na gira, uma deusa refinada e intrometida em nosso mundo capenga? Você não sabe e flutua sobre os paralelepípedos da rua, foi assim que a cidade começou, a ferrovia sorocabana numa ponta e a igreja na outra. E as ruas abriam-se em bifurcações e vielas de terra batida e passeada pelas rodas de madeira das carroças. Você estava lá. Cavalos? Nada de corcéis retintos com crinas a brilhar ao vento ou bestas selvagens vergadas à doma puritana, musculares mustangues, ícone da raça pura colonizadora ianque.

“O que foi isto?” Você perguntará. Foi um curto galope das histórias de far west, de Dorothy B. Cody, para as telas de Hollywood, e de lá para este seu mundo sujo, aqui, onde só há burricos e cavalos velhos que já não prestam para a lida nas fazendas e agora puxam estes carros arcaicos. E as ruas seguiam e povoavam-se de casas e gentes, como rios e afluentes, até desvanecerem em estreitas vias esquecidas, pinguelas sobre sofridos córregos e depois trilhas ermas no meio do capim manteiga.

Tenho-lhe grande apreço. Tenho ódio de você. Desculpe, saiu sem querer.

Você é isto, eu quase existo, tudo basta. Pressinto a ironia estampada nesta sua cara metida a besta, o jeito com que olha, olhar reto, firme; ironia, olhares, tudo amolece na presença dela e você sabe que foi escolhido a dedo no rebanho de machos tardios.

E a cidade crescia e as ruas espalhavam-se aleatoriamente e sem planejamento, capilarização alimentada à pressão e fluxo do sangue das vontades imediatas. Comércio de vida e morte. Secos e Molhados, empórios e armazéns de grãos, especiarias a granel, cartolas de vinhos tintos provenientes de quintas portuguesas. Hoje não tem mais aquele bebedouro para cavalos, você nem se lembrava mais, eu sei, mas eu não tenho o privilégio do esquecimento. Você esquece o quê e quando quer, é uma dádiva.

Você brinca no tempo e procura prazeres em vários mundos simultâneos, esforça-se para cristalizar realidades estranhas feitas de éter, encarnar em sombras bidimensionais e quadradas seu corpo elevado ao cubo. Necessário ao equilíbrio mundano, você é denso, sua carne é suja, sua vida é suja e comum. O brim que lhe ajusta as formas, o algodão que lhe cobre a nudez, o galo que vai morrer, o doce na compota, o vinho que bebe sem medida, são as coisas do seu mundo, são versos de um poema sujo de Ferreira Gular. Não se engane, não há outros mundos mais dignos que este nosso mundo sujo e cá estou para o lembrar, sim, não, não deixarei que se esqueça.

Você flutua e seu peso é o que o impede de subir para sempre. Caminhe, flutue mais um pouco e você estará diante daquela casa e um cão abana o rabo alegremente. Você finge caminhar com os pés no chão e crê na força da gravidade, é aquela sua cadelinha que vem ofegante ao seu encontro, pelo fulvo e emaranhado, é uma vira latas feliz. Você passa pelo pequeno portão de madeira e sente o frescor de uma brisa e sente o cheiro de frutas e vê ressurgirem sensações que julgava perdidas.

Espere!

há algo de errado com a velha que observa da varanda, ela o persegue com sorriso desalmado e seu olhar cego são manchas negras e malignas que pesam na alma. Você ouve o farfalhar das folhas da mangueira, estamos em dezembro e um fruto alaranjado desprega-se de seu caule, você quer sair dali diante do espanto, o fruto não cai, mas sobe com rapidez indizível e desaparece no azul como que atraído por magnetismo celeste, seus pés estão presos e você sente o peso real de si, do seu corpo, deste mundo sujo. Aquela sua cadelinha cordial agora rosna “diabolus in musica”, três cabeças e três bocas trêmulas derramam babas pestilentas misturadas num acorde infernal.

“Meu amor”, escorreu dos olhos dela — aquela dança diabólica — e você foi possuído por legião de espíritos atormentados. Ela, aquela deusa encarnada, dançava com o preto de cabeça rapada, era para você que ela olhava mas sua desatenção o cegou e a beleza de tudo, prismas de luz e máquinas de alegria, aquela beleza de todas as coisas cessou e você não vê mais luz nenhuma.

É somente uma dança.

“Por trás dos panos as vergonhas tecem íntima conversa. Roçam-se.”, sussurra algum diabrete zanzaricando ao redor de sua cabeça.

Sem entender nada e menos ainda como se deu a metamorfose de cadela em cérbero você perde tempo procurando respostas; corpo preso e vontade órfã, seu olhar é órfão, assustado e indefeso, abandonado pelo pai, à espera, o que jamais virá; a emoção petrificada em algum ponto da infância, a mãe perdida para sempre nos buracos negros desorbitados, de onde arrancaram os olhos da velha. “Conte até dez para sair”, sussurra alguém e você sente o ar pesar atrás; olha para a varanda e a cadeira balança sozinha. Um hálito bestial invade seu espaço e a vida que restava parece murchar para sempre.

Um, dois, três…

“Ao contrário”, você sente o peso da voz, “e mais devagar”, insiste o alguém invisível.

Você vira a cabeça e o corpo mas os pés grudaram no chão. Não há vivalma. Outro fruto despenca para cima criando turbilhão de moléculas de ar agitadas, formam um túnel espiralado que se apaga rápido.

Você insiste em participar dois ou três ou mais universos ao mesmo tempo e não vê onde o preto escondeu a outra mão, a dança deixa-o tonto, os atabaques são hipnóticos, a mão esquerda ampara as costas da moça, sua deusa, mas o casal gira rápido e você perdeu novamente a oportunidade de mensurar se a mão dele está posta mais acima ou mais abaixo do que é aceitável.

Dez, nove, oito, sete…

Você ouve gatos, miados idênticos ao choro de criança. Os pequeninos, porém, se tem saúde, choram com mais esplendor, com vibratos e melismas, óperas coradas a pedir tetas, a exigir isto ou aquilo. O que você ouve agora é um lamentar dos desesperançados, uivo contínuo que vem da umbra de onde gritam os não nascidos, os mal nascidos que nunca conhecerão alegrias e cortam a carne da noite com esse fio desconsolado e desumano.

Incomoda sua saliva grossa, engrossada no ódio; o ciúme é música ritual.

Seis, cinco…

O quarto parece feito de vidro e não tem cantos nem arestas, seu reúcter, seria correto dizer mas não houve tempo de você se habituar à nova morada, o que diríamos quanto ao sistema de comunicação. Não é vidro, é poliglazranko, único material sintetizado a partir daquilo que é mais abundante, legado de civilizações passadas. Tudo é feito de poliglazranko, alimentos e peles, extratos, vetores e veículos mentais.

Tudo tem o mesmo sabor e você está aqui a contragosto…

Solução líquida incrivelmente translúcida o separa do …

Três, dois, um…, com muita calma e…, pronto!

Apenas um pouco confuso, você escolhe a combinação mais agradável para hoje. Olhos pernerubĕo, pele rosa cobre, membros estilo em U? “Com que roupa?”, um ponto infinitesimal toma a atenção da sua mente e cresce. Você tem o controle absoluto e não permite a infecção pela nostalgia.

Ria!

Domínio sobre si mesmo. Você está concreto e apalpa-se, belisca-se.

Há enorme borboleta, borboleta colorida que bate as asas mas só consegue o fremir de espasmos musculares, seus fios de nervos, desassossego desde que a juntou à sua pele, pousada para sempre em suas costas nas tintas de uma tatuagem. Você chora e é impossível saber se é a borboleta em agonia ou é a agonia reverberando nas nervuras negras e vitrais barrocos das asas gravadas no crucifixo de seu corpo: estômago, tórax, escápulas, plexos, fluídos e humores na convulsão despótica da culpa.

Formam-se as escaras, escuras, pele e couro, pele morta, cheiro de urina e vômito; fezes secas encalacradas nos panos, na roupa de cama, dentro dos intestinos. Não há tempo para lavar a vida suja, lavrar o tempo e o tempo é pequeno e o tempo é tudo. Hoje o tempo não existe e não houve tempo para passar a vida a limpo.

Você não decide se…

experimenta nova contagem regressiva ou

se…

Você quer matar mas não tem coragem e a ilusão de vingança é um belo jantar.

Acordar de um sonho para dormir outra vida? Despertar de um sonho para cair em outro? Escamas, camuflagens e couraças; prazeres: proteções. É impossível a leveza e você fará a escolha, do leque de portas abrirá somente uma. Portas são promessas e você esquece que dentro de cada promessa há desilusões escondidas. Um caminho exigirá mais coragem, no entanto no outro você achará o bálsamo de não arrepender-se.

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