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Um Conto de Natal

“Ele vem?”, alguém deixou escapar a pergunta, mas as crianças são pequenas esponjas e já olhavam para cima, assustadas.

O vento abriu a porta e o mormaço moreno entrou. Lá fora, cai neve sobre os telhados vizinhos.

Bob, sentado na poltrona, pousou a mão sobre o joelho e divertia-se com o carrossel de luzes, refletido nas paredes, um filme policial vermelho e azul. Ergueu-se lentamente, joelhos dobrados, e suas mãos alavancaram seu corpo para cima.

Luzes pisca pisca e “White Christmas” invadem a domicílio pelo vão da porta.

“Alguém feche esta porra de porta!”, gritou tia Berta. “Não se deve deixar portas abertas em noite de Natal”, murmurou, e ninguém ouviu suas recordações.

O alerta policial seguiu, rua abaixo, sirene intermitente, ultimato para o casal de mulatos que puxava uma enorme caçamba de recicláveis.

“Pamonha, pamonha, pamonha, temos Bacurau e pamonhas”, anuncia o megafone sobre uma Brasília cor de milho. Em pé, Bob apoiou as mãos sobre os joelhos, trêmulo. Ele gostava de pamonha e de filmes.

“Ou escancare logo de uma vez”, sorriu vermelho a gorda Coca-Cola de 2,5 litros, espumando de raiva pelo gargalo.

“Paamooonhaaaas…”, o megafone esparramou a última palavra derretida, antes de calar em ruído branco. O crepúsculo foi uma ferida viva que cicatrizou na casca roxa da noite; casas enfeitadas, as pérolas, jóias, presentes, lixos fermentando debaixo das estrelas e a festa do nascimento é uma esperança pastosa.

“São todos uns bêbados, uns drogados”, tia Berta abafou o grito, olhando para o rangido da caçamba que já tinha sumido, ladeira abaixo.

“Será que ele vai entrar?”

E era possível sentir agitação alegre nas mesas vizinhas e a eletricidade colorida correndo pelas veias das casas. Na entrada da cidade, um grande arco com saudação cristã emoldurava a árvore enfeitada e luminosa ao longe.

Páaaaa! Tia Berta meteu o pé na porta e Sonja fechou os dois ferrolhos, depois selou com duas voltas na chave. Do outro lado da rua, atraídos pelo barulho, olhos brilhantes e vermelhos observam através das janelas opostas.

“Quietos”, sussurra Sonja, e cerrou as cortinas negras. Bob desistiu e largou os ossos septuagenários, que se empilharam novamente na poltrona.

É quase meia-noite. Sonja distribui os capuzes negros e todos vestem. Sentam-se em cadeiras próximas à poltrona, ao centro da sala, e ali permanecem, aguardando o Natal passar.

O relógio de pêndulo deu meia noite e ouve-se um coachar de alarmes eletrônicos nos quintais vizinhos, seguido de gritos de loucura.

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