Ah, essa sua verve italiana
de gestos e caras de meio-dia,
ovula na mesa do café,
não reclama às seis e meia, não se inclina,
embaraça-se em pleno trânsito,
força de terra, útero d’água, planeta mãe.
Mulher, e gravitam machos alfa,
oficiais de polícia, comendadores, chefes de cozinha,
marinheiros reformados, operários,
velhos em seus últimos ternos.
Seu bucho cede aos gametas
no coito patriarcal, nas diversões travessas,
no ângulo transverso da câmera,
na repartição da burocracia,
no almoxarifado úmido e escuro com nove lâmpadas queimadas
onde a velha máquina de escrever descansa,
aposentada, com a letra “t” encavalada na “f”.
Reflexos cafonas do teu riso escapam dos espelhos,
replicam-se imagens no teto, arranham as paredes
de espectro ultravioleta
e seu corpo emerge da lingerie
a fornicar incomum, freudiana e histérica.
Calada, geme mistérios, fórmulas antigas, teoremas,
receitas de amor e conjurações de grimórios medievais.
No intertexto binário que atravessa continentes
cose sua teia que é armadilha de suas cinco pernas.
Na rotina não impressa e não oficial figura pública
na competência privada de escritas e leituras.
Expande-se em leite seu orgasmo violento,
tão espesso quanto breve e fértil,
semeia humanidades e futuros utópicos e distantes
ao ciclo mágico lunar,
em rito sacrificial, seu sabbat,
nas missas negras, suas mitologias e heresias.
Esparrama-se nas macumbas e orgias,
fertiliza o solo seco dos poetas doidos,
faz brotar, germina e recria,
serve de comida a Exu, asperge o sexo dos anjos, defuma duendes,
serafins salivam, Deus regozija e esquece da Virgem de Guadalupe.
Ah, essa sua paixão catavento sol a sol,
este seu viver profético,
que perde-se além do ocaso e alonga-se,
desejosa de liquefazer meu viver pétreo,
meu ato de ver curto, aquilo que eu desejo, elétrico.
E assim cura minhas feridas, minha epidemia, meus surtos,
este meu escrever epilético.
Prenha de palavras e orações coordenadas dá à luz
meu amor menino já crescido,
e eu cresço de seu sangue capital,
que sai aos borbotões verborrágicos, umbilicais
e já são palavras novas, seu estado é interessante,
Pregnant, lua nova, natural.
