à São João da Cruz
A Belle Époque do que seria, a Art Nouveau nos balés da vontade, as nuances infinitas da cosmovisão refinada e corajosa, tudo cede ao maniqueísmo do corpo que liga e desliga a vida e as possibilidades das reticências desintegram-se à ditadura do ponto final. É quando a realidade se resume ao dualismo fácil “É verdade OR É mentira”, e não há mais a fazer diante da tirania digital do zero ou um, sim ou não, bem ou mal, canibalismo do corpo em autofagia sem manifesto. A estrela do nascimento morre e deixa a memória de um nome desenhado precocemente na cruz de beira de estrada. Acidente sem culpados.
As coisas falam
Mas é incrivelmente bom ouvir as coisas.
Elas não tem do que se defender
E falam como se só ouvissem.
As coisas falam como um escritor (sem giz)
Que ouve mais do que diz.
O lixo exala excessos,
Discurso diário do nosso fracasso.
O aparelho quebra, a vela acaba
Mas as coisas também falam
No frio do fogo que se apaga.
Cubos e dados são novos nascimentos,
Possibilidades infinitas e vazios de certezas.
A alma das coisas que falam, inanimadas,
É aquele espírito invocado nas tantas noites
Que agora responde
E que na matéria morta ressoa vivo
Mas só no meu ouvido,
E quase ninguém mais escuta.
Por que me ignoras, Musa
Desde ontem, nas mortas horas
Reclusa na fresta obtusa
De onde tuas histórias cruzam
Do lado de fora dessa tua alegria
Que conversava tão fácil
Com meus objetos escuros
Na tua festa da minha solidão?
