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Teoria da Moedinha

Dar-vos-á à criança não uma nota de dez, ou cinco, ou de um, que seja, pois ela fará tal qual os monomaníacos: rasgará em mil pedacinhos. Também não lhes presenteará de moedas, o vil metal, e sendo vil, nenhum benefício trará, e ainda incorrerá no risco de pô-las na boca e sufocarem. A melhor ação – aplicada ao infante que já se vale da fala para comunicar-se – será apresentar-lhe um simulacro de porco, porquinho, ou seja, cofre, cofrinho, símbolo já acomodado no imaginário da cutura popular. De barro cozido ou cerâmica fabricado, abster-vos-eis dos plásticos e resinas e assim, nas dimensões que garantam boa ergonomia ao manuseio e cores divertidas, dareis aos pequenos não antes de forni-lo de algum recheio de modo a que, quando ao chocalhar, ouvir-se-á um belo tilintar de moedas. Espera-se que o instante seja encantado a tal ponto que a semente da doutrinação fora lançada em terreno fértil, e, esperamos, com a orientação adequada, a coisa andará por si só, e nosso projeto aguardará pacientemente qualquer pagamento para meter-lho no rasgo do porquinho alegre.

Valiosa lição será legada ao vosso descendente, o princípio da recompensa adiada, alicerce de quaisquer êxitos. Entretanto recomenda-se que a recompensa não seja adiada tanto assim, não mais que o tempo justo de não entrar mais moedas na pança abarrotada.

Mas chega a hora da recompensa e deixareis o porco à mercê daquelas maozinhas destruidoras – póft! A natureza fará o resto. Se tudo ocorreu bem, brilhos infinitos e multicores se unirão intimamente a mil sons de frequencias harmônicas do níquel e da cerâmica, o que produzirá efeito indelével na mente em desenvolvimento. Incontáveis gérmenes perdidos no tempo do ir e vir de gerações galopantes se despregarão do limbo para acrecentar temperos. Enfim, com pouca ajuda nossa, presenciaremos o nascimento de mais um capitalistazinho.

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