Atendi o telefone e uma voz gravada disse:
– Se você é Nicole Santos, digite três. Eu não era Nicole e desliguei. Uma destas ligações fazendo cobrança utilizando referências de terceiros. Alguém deu meu número por engano, daí a chamada; talvez, através do constrangimento de um parente, fazer a tal da Nicole pagar o que deve.
Cada qual, nascido de barriga de mulher, tem seu Odú, teimosia de não cumprir é fazer atraso na vida. Viajei na faísca de um pensamento e a curiosidade a respeito desta mulher… Nicole deve ter mais de trinta e menos de cinquenta. Não é gorda; muito magra também não. Detalhes são importantes e criei em sua pela amorenada caprichosa cicatriz, marca de nascença no canto esquerdo da boca. Pronto, ninguém no mundo sorriria como ela.
Depois de jogar os búzios, Pai tratou-me por outro nome. Quase que não lembrava mais. A imagem de Nicole já esvanecia-se no ritos diários. Ao final da tarde, a barba de duas semanas incomodou-me, êta homem desleixado e era preciso preparar-me para o Bori. Depois Nicole apareceu-me na imaginação novamente, ouvi os atabaques e não conseguia acostumar-me, sabia que ninguém além de mim ouvia as batidas de saudação. Onde estão as lâminas triplas? Joguei-as fora anteontem. Afiei a antiga navalha, espumei o rosto, deslizei a lâmina e uma pequena porção de pelos duros caíram, mas cortei-me, a navalha é instrumento perigoso e eu perdera a prática do seu uso. A moldura revelou a cor mulata sob a rodela escarnada. O aço caiu na pia, tilintando na louça, enquanto eu admirava aquela estranha ilha cercada de fios de barba.
Inclinei-me e estava eu diante de mim, cara a cara, e cutuquei sob o olho direito as carnes desbeiçadas pela navalha. Não foi preciso empenhar esforço e caíam no chão retalhos de pele caucasiana sardentos, grudados na velha barba aos chumaços. A mão direita era uma retroescavadeira a escalpar o couro sob o cabelo loiro e surgiu, no início devagar, depois destampou vigorosamente, saltando para fora cabeleira negra e reluzente. O mesmo sucedeu com os arames hirsutos do peito. Revesando um cruzamento sincronizado das mãos em garras, rasguei o tecido do tórax e rebentaram-me dois seios firmes e luzidios.
Ao final, um amontoado de pelos e peles abandonados transbordavam da pia batismal forrando todo o chão do banheiro. Diane de mim, Oxum, negra como as águas profundas, contempla-va-me do espelho. Sorria irônica, a cicatriz pequena no canto da boca, parecia dizer, quase zombeteira: “Eu não falei? Seu teimoso…”.
Entrei na ducha. Sequei-me com a toalha que deslizava a explorar novas anatomias, como dois adolescentes no primeiro amor. Dois dias depois… “Sr. Gregório, Gregório Sanches?” perguntou a voz do outro lado da linha, desta vez era o serviço de telemarketing pedindo doações para um hospital. Eles são incansáveis. Doenças devem cansar muito mais.
Búzios, atabaques e meu novo caminho diante de mim.
“Vocês ligaram errado, aqui não tem nenhum Gregório Sanches.”