O fim é este mesmo, não se aperreie, não está onde deveria estar, onde as coisas têm término, cessam de fazer, ou iniciam outros fazeres.
Para explicar o fim, devemos nos abster da linguagem, dos Abecês, dos Eus, Estares, dos Nós Somos. Não fomos tão capazes assim, o quanto pensávamos, tinhamos por nós admiração pueril, mas eis o fim, que deveria ocupar o lugar último, cena derradeira, o último ato, quando o tenor atinge o dó de peito, límpido, vigoroso, e quão grande seria nossa satisfação – alegria que não revelaríamos jamais, é claro – ao ouvir o sujeito guinchar, esganiçar, num volume exuberante alto, a cair da escala conde galgou sua vitória, nota musical diligentemente ensaiada durante uma vida. Traiçoeiro! O fim seduz sem mover palha.
Pouco mais que noventa capítulos; se terão títulos, os capítulos, não o sei, numerados serão, com certeza. Em algarismos romanos. Um ao Noventa (I ao XC), ou pouco mais que uma centena, realmente não sei.
Por que diabos poremos o fim no meio?
Capítulos, cada qual contará uma história, cada qual com seu herói, um antepassado perdido no esquecimento. Estrelas estrelam brilhos azuis código morse Haverá palavra que mereça nascer da sombra do pensamento?
Um olho, depois o outro; calma, espere, volte ao torpor. Ah! os cílios colados, grudados, o olho esquerdo a perscrutrar a penumbra, como um periscópio espião, mas o outro, o direito, ainda fechado, aguarda o rompimento do visgo que o protege dos castigos da luz. Mais força, mais, como se me arrebentasse as pálpebras, como se todo o despertar da natureza, viva e morta, dependesse disso. As pálpebras insistem, paralisadas, presas por secreção coagulada. Em vão será abrir os olhos, pois veja, já os abri, mas as trevas são muitas e mais uma vez é vã minha ânsia para não me reconhecer no escuro.
Não estamos no meio, a rigor, e eu nem saberia dizer onde fica. Talvez aqui haja a intenção de pôr fim, botar término antes que algum enredo se entreponha. l’appel du vide.
De costas não dá, isto é fato. Talvez, se virar de lado e fazer do antebraço alavanca, do cotovelo ponto de apoio, como se eu fosse um autômato mecânico de utilidade questionável. Arre! E por que estou a pensar nisso tudo, ação pós ação, rotação de músculos, abdução e tração dos ossos, e prever a reação natural da massa, cálculo a cálculo.
Eu jurava que já tinha aprendido tudo isso, as equações resolvidas e gravadas em qualquer arranjo neural involuntário, prontas para o uso, mas…, mas o que me resta é a vontade do agora, minha vontade, somente minha vontade, empreender cada movimento ex mea voluntate!
Talvez eu queira chegar antes, prever o fim, tomá-lo de assalto. Desejo humilhar antes de ser humilhado. Usufruir da espera, escapar de. De quê? Da vertigem…, vertigem da queda? Antecipando o fim, usurpá-lo do fantasma da surpresa? O inesperado. O inesperado e repentino. Susto! A morte súbita, a notícia trágica, subitânea e inesperada. O abismo é o vazio e o vazio é o nada. E entre nós, a tênue película do nada. Talvez, se eu tomar o primeiro assento à mesa possa renunciar à última ceia. Entregamo-nos, pois, à brincadeira macabra de quem fica com a vantagem da surpresa, quem rirá por último.
