Antes de eu nascer já ouvia falar
que o amor era um elefante disfarçado em plumagem de sexo.
Não tolero invasões de afeto,
afasto brutos bandeirantes
de vasculares antebraços que escravizam,
mesmo que venham com carinhas de anjo.
Nenhum nó de marinheiro, corda podre,
cedilha de laço, “s” de sapo ou príncipe,
não sou de João, já disse!
Mas digo sim a José, a Joaquim, a Francisco,
a Paulo, a Pedro, a Paulo, à pedra…
Não sou dessas nem daquelas;
meu pai desconheci,
sou à toa, da vida, Maria, Marrie;
minha mãe? Sou puta que me pari.
Não enjeito rola, pica, toiça, benga,
dou-me toda à revelia,
faço dengo, imito voz de novela.
Ontem saiu um pouco de sangue da minha primavera,
foi a segunda vez desde a primeira folha de outono.
Menstruo um rio escuro,
não sou puta de dicionário,
quem me gosta sabe o que me custa,
me gusta se me cobre e me fode,
quem me assusta, me regurgita, me chupa, me engole,
me defeca e depois de mais um gole
me cospe.
Meu é homem é sempre o melhor,
o maior, o ideal, o cara, o coroa da cara ou coroa,
e tão logo cai a moeda e a sorte guia-me para outras fortunas.
E esqueço. E vivo espalhada em cada homem
que gozou do meu gozo e cada gozo é perder,
(demorei pra mais de cinquenta até)
perder-me de vista
e a cada latejar úmido do meu corpo em brasa
e a cada latido de cão, tímido, ou amor bandido na minha própria casa
arranca-me de mim o varão mais um pedaço,
ao sair de mim — um imenso vazio —
que não ofertou ao entrar.