Este conto contemporâneo explora desejo, decadência e o tempo por meio de uma linguagem visceral e poética. A narrativa mergulha no corpo, na memória e na deterioração, revelando um retrato ácido da existência e da finitude.
O gosto de fruta apodrecida depois do bochecho com refrigerante, o líquido espesso rodopiou ralo abaixo carregando meu reflexo liquefeito junto com lascas de chocolate, restos.
Um dente lá de trás hoje acordou com vontade de dizer que está vivo, único que cumpria sua missão de mastigar sem apenar-me, agora, espinho na gengiva rosa, e encho novamente a boca e ouço a mistura ferver, falsa impressão de assepsia, uma quase alegria corrosiva, o gás diverte ao sair das narinas e estou livre do bruxismo da escova.
Não foi assim que vai acontecer. Ainda que meu pau, um ilustre desconhecido, teime em se esconder naquela cavidade misteriosa e mítica que nasce dos excessos moles e escrotos, as coisas passarão ao contrário, em contagem regressiva.
Vamos a elas…
Chego ao fim com meu mandarim afiado. Vozes bêbadas são vespas, as femininas picam-me o ouvido, sobressaem. Alegria é somente uma esperante convenção.
O velho foi, atestam as ossadas descarnadas sobre a mesa e o esqueleto do frango com o coranchim arrebitado. Melões e melancias fermentam lentamente dentro das cascas grossas invioladas, bananas de prepúcios crispados, efebos pêssegos à espera de mordidas libidinosas que lhes deflore a pele púbere. Só o tempo vai foder as frutas. As maçãs argentinas, de um vermelho impossível, contam histórias de quando a água apagava o pecado original. Hoje, o mundo é natimorto que acorda no limbo das revelações.
Ana estava ébria de duas taças de espumante doce, não é seu hábito mais digno. Eu, bêbado de olhar Ana, quase um vício. Seios bolinados na sala de estar, vazia de festa, e o beijo de Ana é igual andar de bicicleta.
Menti.
Fodemos um cacho de uvas com nossas bocas que se afogavam em sede e nostalgia, orgia da qual participaram dois senhores de invejável virilidade: o Tempo e Mr. Parkinson.
As olheiras, debaixo das máscaras de pele maquiada, são mirantes em ruínas no olho de uma paisagem sem bússola, sem norte, abandonada aos quatro ventos.
As mulheres vestem longos e exibem decotes dantescos, abismos de perdição dos homens de boa vontade, estes, eternos meninos, famintos de atenção materna ou alimento mais sólido.
Estampidos de rolhas e fogos de artifício. Faltam só dez. “Dez o quê”, “dez pra quê”, me pergunto, me achando o mais esperto de.
“?”
Me olha Ana me molha. Talvez me admire, talvez duvide que eu esteja realmente ali. Eu não tenho dúvidas, é tão certo quanto 1 e 0. Estou minha pior versão de mim, a única possível. Arrogante e ressentido. Criança mimada que faz birra às pequenas contrariedades.
Déjà vu?
Bem-te-vis, “bem te vi, bem te vi…”
“Te vi…”
“Te vi…”
Bem-te-vis e acordei novamente com eles. A chuva cai e o sol sobe, um sol tão o mesmo como todos os outros reis, igual aos abacaxis, desprezados sobre a mesa. Deve ser a desgraça de Deus.