A parede está diante de mim
como meu dente projeta o ódio,
brancura à cal e pedra,
na cegueira escura e calada de pedra;
madrugada sem pássaro sem voo
o tempo é minério acumulado sobre os ossos e escoo
matéria pobre que um dia foi boca, teve dentes
e os dentes invisíveis do espírito
mordem alguma coisa;
ânsia de reter, estar, beber ainda uma vez
os óleos que descem do leprosário;
rasguei o véu do tempo,
vi-me envergonhado, meio coberto, meio nu
e pesa-me o sopro alegre dos inimigos,
o brilho da festa,
o viver despreocupado das frutas
como se vida houvesse depois das frutas
e como se a carne tenra se desmanchasse em cores
(eu vejo como a carne finda);
porque hoje mexi com os mortos,
ainda que preso e miserável na surdez fria e calada de pedra,
ignorado,
como um cão quase carniça ignorado.
