Manifesto

Não já sem interesse, nenhum e nada.

Nós ou todos estes seres pequenas usinas de processar comida, de fazer digestão. Esta preguiça sagrada e suada. Este escrever e não chegar ao fim da linha e não concluir absolutamente nada. Uma palavra, duas, três e vem a preguiça.

Começar de novo noutra linha.
Sejam bem vindos à língua selvagem e à razão primitiva da poesia. Escrevam sem medo, descarrilem o trem antes da estação, sem medo, nada morrerá na outra linha, apenas um outro começo. E alguém sempre encontrará sentido na falta de. E sempre haverá porcos a apreciar esta fina lavagem. E sempre haverá glutões a se empanturrar deste sofisticado biscoito.

E sempre haverá quem veja, aqui ou em qualquer parte do mundo, no amontoado de palavras organizadas à luz das tradições poéticas, pérolas nesta lavra.

Hipócritas, desleais e adúlteros traidores a musa poética estendo meu abraço acolhedor: escrevam, abusem da escrava para seus interesses, obriguem-na ao trabalho e depois colham os louros da barbárie da sordidez humana.

Sim, oh poetas, escrevam para engrossarem a baba peçonhenta, estuprem a poesia para seus gozos enviesados, manipulem-na para a satisfação dos seus paladares estragados. Pederastas! Escrever poemas é sempre um escrever de criança. Pederastas que pervertem a inocência ao comando dos senhores do destino.

Versinhos de amor, poeminhas servis de qualquer causa, poemas pornéicos, palavras magnéticas, que suas palavras profanem o território sagrado, o quintal de brincar. Poetas medíocres, que transformem a poesia nas mais vis ferramentas de vender felicidade.

Junte-se um poeta, um palhaço e um pianista e pronto! Está salvo o mundo.

Poetas usurpadores, escrevam em favor da paz. E então batam no peito cheio de honrarias e escrevam uma vez mais. Salvem o mundo das injustiças, as crianças da fome, o planeta da destruição. Escrevam o que puderem extrair da sua alma recalcada e abobalhada. Nem pomba não bomba. Ajoelhar-se diante da palavra, idolatrar a música das estrofes esperar cura como se poemas raras doenças.

Que reverberem o som nos tímpanos de plástico. Signo poético em sinais de fumaça evaporando ilusões de progresso nos devaneios neo antropocêntricos.

Ó, poetas que gostam de comer com os porcos! Poesia que adoça o chá das cinco das civilizadas senhoras inglesas, servido em delicada porcelana chinesa nas ilustres academias francesas onde acotovelam-se cadáveres imortais.

Ah, caro poeta, escreva cartas de amor nas trincheiras das batalhas românticas e a ilusão dos
rompantes de sentimentalismo nada dirão nem cessarão a morte. Vejam o poeta a escrever desvairadamente como se possuído por espírito do tempo. Vinho, vela e corda. Alcoólatra, idiota e suicida.

O vinho é sua glória e é lícito embriagar-se nas citações e convites, aplausos públicos. Sua luz é a chama da vela espalham bilhão de luzes. É a velocidade da luz dos satélites. Legião de computadores de mão, leitores da sua mais alta letra.

Não, poeta, não é preciso suicidar-se, nenhum ninguém nada.

Da glória à morte na velocidade das ondas eletromagnéticas. Poesia é vanguarda. Será sempre vanguarda. O poeta será o onanista a gozar seu exibicionismo solitário no reduto de suas imagens finamente elaboradas. Não cessem a filigrana da criação poética porque poesia sempre será necessária para vender automóveis de luxo.

A vanguarda sempre bombeará o sangue no coração poeta. O poeta esparramará sua alma nos
versos macaqueados de tudo o que cheira novidade.

Não deixem de crer na existência das musas.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima