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Um Estranho Caso de Amor

Toda noite era o mesmo incômodo e assim que ajeitava-se na cama, aquele buraco no canto da parede roubava sua visão. Havia algum tempo que a rachadura subiu até interromper-se naquele vão escuro do tamanho de meio palmo. Algumas vezes sentia-se observado mas sabia que isto seria impossível porque ali não havia nada além do desvão, ou seja, o espaço mínimo entre o forro e o telhado. O mais correto seria criar, naquele pedaço de nada, feições de um olho, o olho da casa a vigiar seu sono, embora seria preciso forçar muito a imaginação para isto.

A partir de certa noite, quando a letargia do sono já ia se instalando, a sensação de ser observado aumentou muito, ouviu até uns ruídos, como unhas raspando em madeira. Os olhos parcialmente fechados pela sonolência ainda miravam aquela abertura escura, quando viu o movimento de duas pernas negras ou hastes delgadas esforçando-se em forma de gancho, para alavancar o corpo de alguma coisa para fora. Mas o sono é um gladiador imbatível e dormiu antes de ver o que sairia dali.

Despertou sem saber quanto tempo havia dormido. Havia alguma coisa entre o fino lençol e seu sexo – dormia sempre nu – e sentiu o membro erétil sendo instigado por alguma coisa. Agarrou as bordas do pano mas já sentira a ferroada, que doía, mas era deliciosa. Entre a dor e o medo, apertou forte o lençol que o cobria, permanecendo paralisado com a intensidade do orgasmo que percorreu-lhe o corpo numa forte descarga elétrica que irradiou-se até os fios de cabelo. O membro doía e ejaculava, e, quando os movimentos foram possíveis, descobriu-se e não viu nada além de uma vermelhidão. Olhou rapidamente para o buraco na parede a tempo de ver duas pernas, um pouco mais grossas que as que vira anteriormente, empurrando o corpo para dentro até sumirem por completo.

Na noite seguinte o mesmo sucedeu, com poucas detalhes diferentes. Deitou-se calmamente e a lembrança do prazer da noite anterior presenteou-lhe com ereção espontânea, sentiu aquilo escalar sua perna e virilha, fazendo cócegas, e como fingia um sono profundo, sentiu que aquele estranho ser se aninhava em seus fartos pelos pubianos e ficou ali, movendo apenas uma patinha, ou perninha, por um tempo até
que novamente galgou seu membro viril, esfregando-se nele. Sentiu como a textura

de um veludo com nervuras de pelica, o movimento acelerou até que sentiu novamente a aguilhoada, e novamente o gozo intenso, enquanto aquilo apertava com umas tantas perninhas alongadas em toda a volta da seu músculo teso, contraindo e soltando, contraindo e soltando até interromper-se e descansar novamente no ninho emaranhado para depois saltar fora do lençol, seguindo seu caminho até a toca na parede.

Repetiu-se por dias, sempre com a mesma intensidade e poucas variações, e era só chegar a hora de sempre e ele fingia o sono – era o código que haviam estabelecido – e ela sentia-se à vontade para o estranho amor a que se entregavam. Às vezes, quando a curiosidade se tornava insuportável, ele erguia o lençol devagarinho com a intenção de surpreender sua amante enquanto se aninhava, mas percebia sempre uma retração e logo abaixava os panos, verdadeiro ato de respeito àquela que tanta satisfação lhe dava. O contrário também ocorreu, uma, duas vezes. Assim que saiu da parede ela percorreu um caminho diferente e escalou seu corpo por outra parte, perto do tórax, estreitando-se entre o braço. Talvez quisesse mostrar-se um pouco mais em resposta à curiosidade do amante, mas, nestas poucas vezes ele ficou nervoso demais, quase apavorado, e ela, respeitando também, não aventurou-se mais nestas investidas.

Certa noite, depois de tantos dias, ele preparava-se para deitar e fingir sono, o amor quase um hábito, se já não o fosse realmente. Com os olhos fechados, esperava, mas desta vez não ouviu ruídos na parede, nem viu nada a se insinuar pela fenda, tampouco as cócegas, preliminares que anunciavam a presença da amante.

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