Escritores de Domingo

Danem-se os escritores de domingo,
Dadivosos e ofertantes de sua pilhéria universal e miserável,
Palavra polvilhada de ácido acetilsalicílico,
Doces pílulas coloridas e adocicadamente alegres
Que melhoram qualquer cotidiano infantil.

À danação dos corpos dos meus antepassados,
Ao deleite negro do câncer que seduz meu próprio corpo
Dedico odes à puta pobre, fértil e sifilítica
E desejo o mal a todos os putanheiros da palavra.

E aos covardes que se mostram às pencas e manadas
Meu riso de desprezo é necessário como o cálcio
Que sustenta a ereção destes meus ossos.
E é divertido ver homens de brinquedo,
Ordinários, de cabelinhos bem repartidos ou falso desgrenho,
A vestir vozes roucas e sedutoras a varejo,
Ventríloquos incompetentes de si mesmos.

O desprezível, o erro e a dúvida são minha massa de poesia,
O cálculo é minério nobre,
Empedra a matemática das circunvoluções cerebrais calcificadas.
Já imitei, copiei, aprendi e esqueci. Hoje falsifico.
E debaixo do meu cheiro agradável, o enxofre esnobe.

Não se fazem mais homens à minha maneira,
Hoje fabricam-se crianças estúpidas,
Manipanços neuróticos bem aceitos, calculados.

Satisfeito e sátiro, satanás a ouvir o coro dos seres perfeitos
Quer minha conversão!
Mas não, não negocio meus erros.
Estão contaminados, artisticamente puros e sãos,
Carcomidos pelas larvas de um bem que nunca existiu,
À brincadeira de deus, a diversão do belo;
A utopia repulsiva da coerência que desdenha o acaso.
Nos textos maquinados para anestesiar tardes de domingo
Há um quê de raca, “k” de caca, algo de nada.
Minha voz não se empluma de militância vaga,
Também não estufo de pedagogia o peito,
Não sou pavão e não me igualo a avis rara
Meus documentos, vazios de títulos ou identidade,
Pingam, gonorreicos, roxo vergão da decadente autoria
e ardem sob olhares eletrônicos.

Creio em nada e em qualquer coisa descreio,
Uso meus outros nomes sob letras falsas e anônimas,
Grandes enganos são para poucos, e de quem é o devaneio
Se daqueles escritores de domingo
Compro os livros, rasgo as páginas, depois leio?

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