Oi, mundo.
Não nasci Raimundo nem Severino — nasci coisa torta, embrulho de carne frouxa. Vim ao planeta como quem escapa por engano de um pesadelo alheio: feio. Pelancudo, repulsivo, tão repulsivo que as avós, ao me avistarem tremelicando atrás do vidro da maternidade, empalideceram como quem topa com um mau agouro. Se encheram de pena daquele feinho que esse aí não atravessa a noite, não vinga, desmancha antes do amanhecer.
E eu, recém-parido, boiava náufrago no berço líquido, larva e pupa esperando pra ver se o tempo se dignava a dizer se eu era gente ou só um erro viscoso da espécie. Junto à manjedoura –hoje eu sei – uma pequena multidão se aglomerava para ver o pequeno rei que faria descer dos céus um novo reino de justiça; a manjedoura era a estufa, reservada aos mal nascidos, a multidão era deveras mínima, um conjunto de objetos escanteados: um suporte para fluídos, já carcomido pela ferrugen, há que se notar, um esfregão esquecido pelo faxineiro, a miniatura de uma bola de futebol, made in China, mimo de algum bom samariano consternado que passara por ali, e um ralo aberto no chão