Da República de Valcárie e do povo que vive lá

E ainda será possível afirmar que a lógica é celebrada com emoção pelo povo comum, como uma faculdade exótica e encantada, enquanto por outros, os especialistas, é tratada como algo natural, depurada das leis da natureza e assim, paradoxalmente, enaltecida como superstição.

Ocorreu, pois, em certo tempo, coisa de uns anos atrás, a proibição da venda de supositório infantil em toda a rede de comércio de medicamentos do país. O uso em crianças era comum para aliviar cólicas e estimular a evacuação, mas com a nomeação da nova equipe de saúde, leu-se o que não havia sido escrito e escreveu-se o que ninguém leu. Logo, as escolhas tecnicas eram legitimadas com teorias mal compreendidas, se é que realmente existiam. A prática mais comum era criar citações falsas ou conceitos amplos e genéricos, estatégia ilógica e irracional, mas que funcionava.

Assim, decretava-se tal proibição com a justificativa de que os pequeninos correriam o risco de se viciarem desde a tenra idade, vício que poderia degringolar-se em comportamentos sexuais invertidos e doentes, mal que carregariam até a idade adulta.

O governo fez imprimir livretos e periódicos fartamente ilustrados, distribuídos nas escolas, grampeados aos ingressos das lutas e do futebol. Uma enxurrada de filmes de doze segundos inundou todas as telas ligadas à grande rede, enquanto notícias sensacionalistas e sob medida, prêt-à-porter, reforçavam os alertas do governo de que o uso de supositórios em crianças com menos de seis anos as transformaria em seres abjetos, e nas melhores hipóteses, em figuras sem definição sexual, nem homem, nem mulher.

A proibição do comércio, juntamente com a divulgação massiva do perigo dos supositórios, seria suficiente, pronunciou o porta-voz do governo, para deter essa onda de libertinos e promíscuos.

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