Nunca saberei o motivo. Sentei-me na poltrona na mesma posição ensaiada da primeira vez. Cruzei as pernas, descruzei. A lata de refrigerante na mão esquerda..., desisto, braço e mãos afetados.
A porta abre-se e invadem meu espaço, direito individual alugado, com refletores, filmadora e equipe de filmagem, na verdade só três pessoas.
“Vocês sabem com quem estão falando?” Não disse nada porque tive medo. Não sou daqui. Esta frase na entonação errada, sem energia e arrogância suficientes, traria o efeito contrário. Na recepção chamam-me doutor com sarcasmo inconsciente, dá-se o mesmo com os políticos, ministros e juízes, doutores da verdade. Todos os funcionários são doutos em hotelaria e falam mais de três línguas.
Resta-me aguardar e permaneço sentado, a invasão continua. Fotofóbico, a luz me cega e só vejo vultos borrados. Meu ouvido absoluto distingue passos na escada, o cabo de aço do elevador tensionando até atingir um si bemol em oitava baixíssima, o fritar de um inseto na lâmpada quente do refletor. Nenhuma voz conhecida.
Confundiram-me com algum corrupto e acham que escondo dinheiro no banheiro, ou na mala, ou na cueca. Procuro enxergar e simulo uma viseira com a mão, não há ninguém com colete da Polícia Federal. Lembrei-me que deixei a porta levemente encostada, sem a tranca, logo não houve invasão. Ou houve? Não sei e decido não pensar mais nisso, tudo o que não quero é passar no fantástico domingo à noite ou naqueles programas de “pegadinhas”, atrações grotescas, resquícios circenses de uma época em que aberrações humanas ou animais eram expostas para a diversão do público pagante.
Qual seria minha aberração? Homem-lagosta? Observei minhas mãos, não se parecem com garras. Mulher barbada? Sou homem e apesar de não ter traços de troglodita, não enganaria como mulher por muito tempo.
Celebridade? Notável? Expoente? Nenhum dos três. A segurança da ostra sempre protegeu minha ilusão de pérola. Recordo-me de Machado, em Dom Casmurro: “Vozes abafadas são sempre possíveis”.
A equipe avançou e a lente está a um palmo do meu nariz, a luz forte banha-me, estou cercado. Um homem jovem vestindo terno e gravata apontou o microfone e aproximou-se sem respeito.
Ela não veio. Muitas coisas passam dentro da cabeça, do lado de fora o repórter abelhudo chega tão perto que penso que vai me agredir com o microfone. Aí já é demais e com um forte impulso levanto-me e agarro o microfone e o colarinho do homenzinho com cabelo engomado.
A sensação foi muito estranha, não consegui agarrar nada, era como se agarrasse punhado de fumaça. Ninguém dava conta da minha presença e então pude perceber que o microfone era só para ele, ele é quem dizia com voz de apresentador de auditório. Passaram por mim e rumavam à imensa janela que emoldurava um pôr do sol maravilhoso. Eu fiquei em pé, invisível a todos e vi quando apontaram a câmera para o piso térreo onde havia tumulto de vozes e gentes, luzes vermelhas piscando, dez andares abaixo.