Gosto de lembrar não, ponho fim é no escrever, eu, de pouca leitura, hã? Ignorante, arre, sim, sou ignorante de muita coisa sim, sabença quem acha que tem, ôxe, ignora mais que eu. Difícil principiar mas já que comecei dá é gosto, fica divertido que só, e vai indo indo indo, sarapintando o papel de letras, mosquitinhos espertos que vão grudando no açúcar dos inventos de histórias e contos. Eu, mentiroso? Mentiroso? Arre, mentiroso sou não, mas aumentar eu aumento, se não aumento nem tinha graça. Mas vou escrevendo, pinto, bordo, como pelas beiradas, inventando invento a hora, mas hora que vejo tô cansado que doem os ossos, nem dormir não durmo não, viu? Tão cansado no corpo e na cabeça mas aí já é tarde e dá vontade de pôr um fim logo, terminar bem a coisa e, se termino…, ah, dá um alívio que só. Eu? Sou sim. Meio acaipirado, só que não vim não, cidade é que veio pra riba. Aí sabe já o sucedido… Sabe não? Sabe sim, pensa, cabeça não é só pra escorar chapéu não. Arre, tudo muito bom na cidade, luz elétrica, viche, é bom, açúcar baratinho branquinho branquinho e fininho… É sim, baratinho mas carece dinheiro que daí carece tempo pra mode ganhar dinheirim.
Vem, vem sim, vem cá, chamo a senhora senhora? Dona, moça, donzela né não, né? Já veio pra ficar, dentro de mim da minha casa, da vidinha à toa minha, uai, veio sim isso é que sei… Êpa, qu’é isso, dona, faz luxo não, pode sentar, senta aí, descansa o corpo, água fresca? Pego já já? Cerveja daqui tem água boa da boa da melhor de todas, águas do guarani. Hã? É sim, o aquífero guarani, dona reza pra não acabar, viche, reza não? Eu também não rezo não. Aqui é terra de serras que dantes tinha os picos agudos mas aí o tempo já plainou tudo. Qu’é isso de olhar desse modo, dona, parece que lembrou de mim, é? Ah, aquela porta ali fechada… Olha prali não, dona, olha qui. Ah, os livros, pensa que li tudo isso, pensa, é? Li nada, careço pouca leitura, viu? Dentes bonitos a moça tem, parece louça, meus não, eu trago herança de dente perfeito mas aí já viu…, e deu no que deu, relaxei, achhh? Sobre a triste Ouro Preto o ouro dos astros chove. Gosta dos parnasianos, vi que sim…, falei que era boa, calma, não vá se afogar, não se afobe.
Mira no vão da porta, ôxe, pode sim, mira lá pra serra, viu só, depois da serra tem outra serra, viu não? Eu? Eu conheço porque já fui mas hoje vejo sem ver mesmo. Hã, ah sim, daqui não dá pra ver quase nada mas se vem mais um pouco pra cá, serra depois de serra e vai longe, Deus sabe onde finda. Acha isso? Creio não, uai, coisa de poeta. Coração é pouco porque poeta é quem não amadureceu o sentimento, mas isso só vale pra poeta homem, sabe não? Êh, dona, tem diferença sim… Ah, não? Eu? Foi o tempo longelonge, não faço gosto de lembrar não, dona, agora é só água no bule. Não, é só um jeito de falar daqui. Achhh. Quer café? Tenho pingado com… Qu’é isso, moça está assustada com o quê, quer pegar o rumo, seguir trecho…, tem nada lá dentro não, moça vai mas também diz que fica, então fica que o café já já. Pão com manteiga. Lá no fundo tem meu quarto, tem minha cama de preguiça e o banheiro é praquele lado, se tem necessidade nem carece pedir.
Hoje chove daqui a pouco e vem um toró, mas sabe que é até bom? Sente só essa brisa geladinha com cheirim de terra, viu só? Vichemaria, penso igual, chuva não presta pra quem mora na rua, pensou? É um deusnosacuda, um corre corre com tralhas pra lá, outro bate na porta de igreja, filhos choram sem poder mais, vichemaria, o pobre sente mais a desgraça, mas chuva é graça de Deus, né não? Êh, moça, pensa parecido mesmo… Rico e pobre sempre teve, desde que mundo é mundo. Malemá. É assim mesmo que é mas quem é que sabe dessas coisas? Olhe só, apruma mais pra cá, lá onde tem o azul pesado, quase cinza, viu? É cordilheira que vai longe, passa por toda cidade, Bauru, Piratininga, Tibiriçá, Presidente Alves, São Luiz do Guaricanga, Avaí, e segue a trilha. Avaí tem índio por lá ainda. Riso bonito, lustroso, tô vendo sim, já vejo é bem, carne murciça, firme, ai, aí senhora me insulta. Hã… nhãc, beija doce, moça, quente, doeu até a nuca, tô habituado com amor não, dona. Mas agora acostumei, vem cá de logo e de vez, brinca comigo não, que agora vou te brincar contigo até! Não principio mas também não ponho fim.
Tem vinho do padre, tem sim, dona quer? Molhar a goela, destarrancá o peito, amaciar a… Ê’c, êê’c. Desculpa meus modos, dona, mulher vem sempre aqui não. Vinho tinto, doce do açúcar da uva mesmo, esses vinhos de missa tem que ter pureza, sabia que não ia enjeitar. Hã, ah, bom mesmo, né? Bom pra diabo, é isso sei sim, feito lá no mosteiro, pertinho daqui, arte dos padres de lá, moça nem desconfia o que fazem por lá, aqueles padres. Hã? Ué, por que não? Dia desses eu conto todas as artes que tem lá, conto sim. Agora gorinha? Depois conto história verdadeira do padre Aquino que foi-se embora sacudindo a poeira das sandálias e rogando praga na cidade; pois sim, sucedeu sim, o povo dizque não pode contar esta história e faz boca miúda, isso porque tem a gente da maçonaria; ihhhh, só que nem falo mais… Nhãc nhãc, ahh, moça, faz assim não… faz sim, só que agora não conto não; Mais um gole, mais um? Sabe, moça bebendo delicado assim lembrei foi da Maria Bananeira, ichh, aquela gostava dum gole que só vendo! Bebia bebia bebia e virava Maria… Mulamba… Hã? Hum? Ah, é… esprito de mulher que desce pelas giras aí, nos terreiros; êee ôoo, essezolho brilhoso de Stela D’álva, quer pôr a perna aqui, quer? Cê se achegue, moça, faço gosto demais, conto até tudo tudo. Esfrega gostoso eu esfrego a moça no meio das pernas. Falei? O vinho amaciou a xibiu? Falei?
Maria Mulamba é história triste demais, num gosto de lembrar não, é Pombajira, orixá mulher. Eu? Não…, nunca vi, mas ouço dizer por aí. Êh, êh êh. Ouço dizer… Era das Sete Catacumbas, rica dos tempos antigos do império, mas era das Almas, filha de fazendeiro de café, mas era das Sete Saias, dona de cabaré daqui, quando o Brasil só imitava costume. É assim, dona, não atinou não? É tudo junto na Pombajira que veio do povo banto, os escravos. E foi-se fazendo no tempo, Exu mulher. Quando desce faz as casadinhas trair, beber e fumar e no homem faz virar marica. Arre, arri, ah, ih, ih. Desculpa a moça que eu só tô é rindo mesmo. Hã? Tem? Tem, tem uns dois por aqui, depois espia lá praquele lado, indo lá perto do rio, passa o brejo, sobe beirando a murada de pedra vermelha. Às vezes, se o vento golpeia certo, dá pra ouvir de noite os atabaques, o batucajé e gente gritando. Maria Mulamba é dona do desejo. Eu? Num acredito não, só que nem duvido.
Brinca bem a dona, hein? Fácil e bom pra querer mais. Trepa na cadeira, assim vai é matar os dois, êh, dona da boa, que anca é essa, pele de folha de figo, cangote que cheira terra quando chove, onde, pronde vai com isso, aí já foi tudo pro nada. Que? Bom, agora chega de história, muito palavrório, deixa pra depois. A porta trancada? Esquece, dona, olha lá não. Que qu’é isso que olha assim, lembrou de mim, faço fé e gosto, perna forte tem a dona, me espreme e quase que eu saio de mim pra mim, coxa firme, isso ingiste? Pssss, pssss, calei, careço falar mais não, tesuda que tira água da piroba, mexe essas cabaças de feitiço, já vaza leite na bilha, bocas, olha o quê? Lá é a porta trancada, olha pra cá, já falei, vira os zóio pra mim, vira? Chupo essas tetas que vai até o caroço. Que? Tem não, trec, trancada, faz um bom tempo, abro não, gosto não. Gostou, moça, ahh, gostou sim, quase… Que tremeção é essa, ah, sei, já meto o dedo já já, arrepio todo com essas ancas levantadas que já perco as estribeiras todas. Ah! Moça quer? Faz tempo que não brinco desse jeito mas se a moça quer… Nem era pra eu falar não, perdi o costume. Então vai, vem, vira e empina essas ancas que já enrabo.
Aí, não falei? Olha o toró desaguando nas telhas, vai pingar nas costas, é pra já, mas fica bom demais, calorzão que castigava a gente, né não, senhora? Incomoda não, refresca. Dona diz que faz cosca mas cosca é só antes dos doze depois vira outra coisa. Ri e ri com gosto, bom demais. Ih, afrouxou… afrouxa não que tô na gota, segura aí, dona; qu’essa mão tá fazendo aí? Êpa, óia o respeito, dona que gosta duma traquinagem, dum malfeito, isso aí ninguém bota a mão não! Onde mamãe botou talco e limpou com todo o carinho do mundo ninguém bole não! Já botou agora deixa. Tardinha, meio noite, escuro de breu não tarda, agora deu de arranhar, êta que unha doída parece que arranca couro e olha que o meu é curtido; credo, dona, estas estrias de veias que saltam e que brotam no pescoço, na sua cara, os olhos vermelharam… Não é não, nada não, mas tô achando meio esquisito. Parece que vai despencar o céu e acabar-se o mundo nesse aguaceiro e gotejou de me empapar com tinta de sangue! Ôêeee, ai que ardume… Dona me talha a carne com essas garras de aroeira que pega fogo e queima feito o diabo e pra quê de cutucar o imbigo, a moça vai me rasgar a barriga desse jeito. Riso demente dá é medo, boca parece que cresceu e é cheia de dentes, uns cem pra mais, é muito dente afiado nesta boquinha que beijava bom e lambia que fazia gosto. Vichemaria, se me morde agora e me tira um rim numa bocada só e vou é me benzendo por dentro porque os braços nem mexem mais. Deusdocéu, que foi isso, uivo de bicho, berro de caipora? Pele pururuca e toda ruspiosa, credo, creio nisso não! Aiiiiii, deixa eu correr daqui, destampa uns buracos na barriga e nasce um braço, outro braço, e eu que… Olha só o pé de vento que assoviou igual Urutu Cruzeiro, e vai subindo que levanta a chuva e os pingos chovem no contrário, parece é que chove pra cima ou eu é que tô com a cabeça virada? Uma mão já tá troncha, morreu na ponta do braço, acho que a dona quebrou nesse pega e arrebenta igual faz a jiboia. Parece que não dói mas vou te dizer que dói é demais. Hã’m? Credemcruz, que rabo é esse que brotou do fiofó? Vai crescendo e tem ferrão preto na ponta. Que? Faz isso não, dona, faz não… Vai doer muito? Morrer dói? Num gosta de mim não? Acho que vai doer muito, quero não. Gosto d’ocê, senhora moça. Parece que estou sumindo, tudo se anuviando, dói mais nada não. Zonzura, morri é? Será? Morri não, velhão barbudo? Vi não. Só que lembrei do ipê roxo lá do quintal onde morava meu avô… Sei não porque lembrei disso agora.
Dessas coisas de bem e mal sei é pouco, viu? Mas dá pena demais…Morrer dá é pena e dói demais da conta! Pois sim, é isso…, disso vive o diabo, de ajuntar o que é vero ao que é falso, e ele mistura tão bem que ninguém separa mais não. Que? Deus? Tá quieto lá, não se avizinha nem toma lado, parece que nem é daqui deste mundo.

Texto dedicado a Lima Duarte e Guimarães Rosa