Ruminações. Melhor lugar para ruminâncias, o trono sagrado. No entanto, algo não ia bem e seu corpo parecia conspirar contra ele. Quem tramava contra quem? Apenas uma ilusão. Seu cérebro mastigava algumas imagens sem sentido enquanto os intestinos…, ora, os intestinos pareciam se rebelar contra o resto dos órgãos e, se o córtex cerebral sempre lhe convencera de que ele era o CEO, dominante gestor do corpo, os intestinos… deles era a palavra final.: Assim, ruminando ruminava o pensamento e da massa informe extraia-lhe o suco das ideias, assim, das ideias palavras se atraíam em períodos com certa logica. Assim, Deus seria um escritor, um escritor criacionista ou evolucionista? O Todo Poderoso, sendo Ele criador absoluto, criacionista portanto, teria tramado desde o princípio a coisa toda: personagens, início, meio e fim, tudo alinhado sob seus desígnios. Se evolucionista, teria escrito a épica universal deixando a obra inacabada, cheia de vazios e porosidades, legando ao acaso a liberdade para preenchê-los.
Coração com veias necrosadas, nebulosa colorida, sombras projetadas nas conchas do Congresso Federal. Outras imagens assaltavam sua mente, instante a instante, Ele tenta se concentrar ao máximo em algo que estimulasse a evacuação, um trem saindo do túnel, um vulcão em plena atividade, uma caixinha tetrapack expelindo leite condensado pelo orifício. Os sons, ruídos, música, os textos sagrados relatam que no início havia a Música,
Obviamente que se leva a sério, um Napoleão, um Américo, quando não, um Galomeu. Nixomajesuzielgalorione-enquanto os nomes se adensavam na superfície, ele temia os pequenos sinais do corpo e a si indagava que diabos suas vísceras se rebelavam. Ele era um Confúcio, um Guaicaipuro, um Cabral, um Alexandre, um Agostinho santo, uma Frida em cores, Naturalmente, seu trabalho será. Próximas gerações debruçar-se-ão sobre. O fato é que ele não tinha se dado conta, ou pouco se sabe o quão longe ia sua consciência de si, e pouco se sabe, realmente, a quantas anda a consciência de cada um, conquanto todos padeciam do mesmo mal que é o de duvidar do próprio corpo, talvez a maioria, ou muitos, ou quase ninguém, nem há como saber, mas era sobre ele que a febre do corpo agora insidia, como um sol azul invernal a emanar calafrios, ou seria a ilusão do pensamento a lhe provocar hipersensibilidades, poderia ter se questionado, um Sócrates, ele seria um Sócrates, E quais conspirações o corpo tramava dentro dele, sorrateiro e desleal, insurrecto, esta corja de amotinados, são estes os órgãos, os humores, os tecidos, os gânglios e glândulas, os intestinos novelares sussurrando sub-reptícias síndromes, o fígado, sequestrador de memórias ressentidas para cozinhá-las ao amargor do fel, o estômago exaurido em engulhos simulados, a pele e os pelos ameaçando retração no avesso, negando seus próprios limites, o coração e pulmões, reféns esvaziados das próprias metáforas e funções essenciais, A consciência insistia nesta dualidade — mente e corpo, corpo e alma, vigília e sono — e toda sua maquinaria sutil observava, impassível, o ocaso de si mesma e o apagar-se em tênue sombra deste moto perpétuo.
Ouve-se a morte de mais um anônimo a desfilar suas exéquias ladeira acima, Viela dos Vermelhos rumo à calunga, cemitério dos macumbas. Aos picados das guitarras espanholas se misturam metais à moda mariachi, uma tuba, ladeada por dois bombardinos, sustenta o contraponto profundo das chaves graves que, sincronizadas com a marcha andante, sacodem a poeira dos pés