Ele caminha e a diversidade o encanta, o medo inicial foi substituído pela admiração, e segue, avançando, observando cada detalhe. Há uma mãe sentada com um casal de filhos, o menino foi feito com os braços erguidos, a pedir colo, mas a mãe está com o corpo torcido e o rosto voltado para a menina, ambas sorrindo, uma para a outra.
A temperatura caiu, o sol está a um passo do crepúsculo, mas parece seguir mais devagar. Um vento cortante uiva no meio das pedras, uma, duas vezes, e ele tem a sensação de que algo se agita dentro delas. Ele olha para o horizonte e o horizonte é um aglomerado denso de pedra; olha para trás e vê o veículo parado reduzido a um ponto, Sr, O. então percebe que caminhou muito mais que imaginava, aperta os olhos e duvida se aquele ponto é realmente seu veículo, todavia, a motivação de descobrir o desconhecido é muito maior que a mesmice da volta. E segue, se embrenhando no meio delas, incautamente, sem saber que está entrando num labirinto sem saída.
Há um homem sentado num trono, e parece possuído por uma dúvida cruel. Sua mão apoia a cabeça, que pende de lado, segura pelo pescoço esticado e torto.
Um novo uivo reverbera e passeia entre as estátuas, um som terrível, e ele sente-se perdido. O veículo ficou para trás, vira-se, e já não sabe onde é “para trás”. Ainda assim, sente-se compelido a seguir, e, alguns passos depois, nova escultura se destaca dentre as demais. É uma mulher nua, dotada de uma beleza grega e proporções perfeitas. Tem o olhar voltado para baixo, como se procurasse algo, e se inclina sobre um poço…
Sr. O., absorvido pela perfeição daquela cena perpétua, não vê o vulto que passa ao lado, como um animal que caça, ágil e silencioso. A figura da mulher é tão perfeita que parece real, ele pressente que a, qualquer momento, ela despertará do seu sono de pedra e começará a mexer os braços, as mãos, e volverá seu rosto e olhará para ele. Sr. O., realmente crê que assim acontecerá, e espera, contemplando sua beleza, admirando os longos cabelos, algumas mexas congeladas no ar, outras, a escorrer nos ombros até encobrir uma coxa. O animal passa outra vez e ele ouve ruídos muito baixos, o suficiente para concluir que tem companhia.
O animal salta sobre ele…
É Nicole.
Sr. O. estava sozinho, cansado de fugir de deus e do diabo. Nicole, Genê e Burrús ficaram para trás, na verdade ele tinha dúvidas se eles teriam existido realmente.
Ele contempla o crepúsculo congelado, à espera das luzes da cidade para guiá-lo, e irá sozinho mesmo, embrenhando-se mato adentro; se caminhasse uns… dez quilômetros…, não, parecia bem mais perto, eram cinco, somente uns seis quilômetros entre ele e a realidade exata onde pudesse apoiar os pés sem receio de ser tragado pelo abismo. Estava atrasado somente dois dias e o GPS e aparelhos celulares continuam desorientados.
Neste momento, Sr. O. descansa à sombra de uma Figueira Branca e seus galhos secos o acalentam, alongados devido à posição do sol poente, e envolvem sua sombra dentro da história no mundo das sombras, um emaranhado escurecendo a terra salpicada de arbustos. Estranhamente o sol não se moveu desde que decidira aguardar as luzes da cidade e ele lutava contra um sono teimoso. Precisaria dormir, apenas um cochilo… as pálpebras pesadas e avermelhadas do sol da tardinha…
Sr. O. não resiste ao cansaço e os olhos se fecham após algumas piscadelas. O sol ainda lá, indiferente, gigante e vermelho, as luzes da cidade apagadas para sempre, e quando o sono enfim venceu e os olhos ficaram selados, sua sombra deixou de existir e os braços da árvore não abraçavam nada além do vazio, e então o sol continuou seu curso, ignorando a realidade dos fatos e atento a todas as histórias, gravando novos dias, outras cicatrizes na pele do mundo.